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A ABPF foi fundada em 1977 graças à iniciativa
do saudoso Patrick Henri Ferdinand Dollinger, nascido em Remiremont, na
França, no dia 5 de fevereiro de 1940, que radicou-se no Brasil e que já
havia tido participação em entidades de preservação ferroviária em seu país
natal.
Pela natureza de seu trabalho, Patrick viajava muito pelo interior do Estado
de São Paulo, dando preferência, sempre, ao transporte ferroviário.
Nessas viagens Patrick viu o estado de abandono em que se encontrava a
memória de nossas ferrovias, com locomotivas sendo cortadas no maçarico para
virarem sucata, carros e vagões antigos sendo depredados etc.
Diante disso, Patrick teve a idéia de fundar uma associação preservacionista
nos moldes das européias.
A forma encontrada foi a publicação de um pequeno anúncio classificado no
jornal "O Estado de S. Paulo" procurando pessoas interessadas e que
comungassem o mesmo ideal.
Apenas duas pessoas responderam ao anúncio: Sergio Romano e Juarez Spaletta.
Juntos, eles deram início à idéia da associação.
Nos contatos boca-a-boca surgiram outros interessados e, após várias
reuniões, conseguiram, no dia 4 de setembro de 1977, realizar a Assembléia
de Fundação da ABPF – Associação Brasileira de Preservação Ferroviária,
evento esse que contou com a participação de 14 pessoas!
Era o começo de tudo.
A ABPF foi conseguindo novas adesões e logo tiveram início uma série de
ações de protesto contra o sucateamento de locomotivas a vapor. Isso ocorreu
notadamente no Estado de Minas Gerais, onde a tração a vapor durou mais
tempo, uma vez que em São Paulo havia pouco o que resgatar.
Na época, a Rede Ferroviária Federal acreditou nos propósitos daqueles
jovens defensores da causa da preservação ferroviária e fez um contrato de
comodato inédito, cedendo a particulares, pela primeira vez na história, um
acervo de locomotivas, carros de passageiros e vagões.
Ao mesmo tempo em que se obtinha a primeira vitória estava criado um grande
problema para a ABPF.
Havia um acervo de material ferroviário pesado e esse material tinha que ser
alocado em algum lugar.
Iniciou-se, então, um novo trabalho de arqueologia ferroviária: encontrar
dentro do Estado de São Paulo, num local de fácil acesso para quem morava na
Capital, um trecho ou ramal ferroviário que estivesse fora de operação.
Depois de muitas viagens e avaliações, foi "descoberta" uma linha desativada
que ia do bairro de Anhumas, em Campinas, até o município de Jaguariúna. Era
a antiga linha-tronco da Cia. Mogiana de Estradas de Ferro, que teve seu
traçado reformulado para ter acesso à Refinaria da Petrobrás, em Paulínia.
Foram então iniciadas gestões junto à Fepasa – Ferrovia Paulista S/A,
detentora da linha, para sua cessão em comodato.
Finalmente, em 1980, a Fepasa cedeu às insistências da ABPF e assinou o
Termo de Comodato, transferindo o trecho solicitado para uso da associação
por prazo indeterminado.
Com essa conquista, a ABPF deu mais um importante passo para consolidar seu
objetivo.
O trecho ferroviário da ABPF ia da estação de Anhumas (bairro de Campinas)
até a estação de Jaguariúna, passando pelas estações de Pedro Américo,
Tanquinho, Desembargador Furtado e Carlos Gomes. Na estação de Jaguariúna
havia um grande pátio ferroviário, onde passou a ser alocado o material
ferroviário que ia sendo conseguido.
Em Jaguariúna foi restaurada a primeira locomotiva da ABPF, uma tem-welled
(4-6-0), construída pela Baldwin Locomotive Works (EUA) em 1912, que levava
o nº 215 da RMV. Com essa locomotiva e dois carros recuperados foram feitas
as primeiras viagens para conhecimento do trecho.
A via permanente, embora invadida pelo mato encontrava-se em bom estado, com
trilhos TR-45. As estações necessitavam de grandes reparos e uma delas Pedro
Américo estava completamente depredada. Nas estações, com exceção de
Jaguariúna, não haviam pátios nem desvios e os poços e caixas d'água tinham
que ser recuperados.
Em 1983, veio o primeiro grande golpe para a ABPF: a prefeitura de
Jaguariúna desapropriou a estação e o pátio e obrigou a associação a retirar
todo o seu material do local, destruindo, em seguida, o pontilhão que dava
acesso à estação.
Dessa forma a ABPF teve que construir, às pressas, um pátio na estação de
Carlos Gomes, onde havia somente a linha principal, a fim de abrigar todo o
material rodante e dar continuidade ao seu trabalho.
Em 1984 a ABPF iniciou sua operação turístico-cultural, ligando Anhumas (em
Campinas) a Jaguary (uma estação improvisada perto da cidade de Jaguariúna).
No mesmo ano entrou em operação a locomotiva nº 210, também uma ten-welled
ano 1911 colocando-se em operação um segundo trem.
A operação do trem turístico-cultural corria normalmente até que, no dia 8
de setembro de 1985, a ABPF sofreu mais um duro golpe: na madrugada desse
dia irrompeu um incêndio criminoso no pátio de Carlos Gomes, ocasião em que
vários carros e vagões – alguns deles raríssimos exemplares – foram
totalmente consumidos pelo fogo.
A catástrofe serviu para unir mais ainda os associados da ABPF, que
redobraram seus esforços reconstruindo o pátio ferroviário e dando
prosseguimento ao seu trabalho de recuperação do material ferroviário.
Nesse mesmo ano, as parcerias da ABPF com a RFFSA e Fepasa continuaram
evoluindo, sendo que os presidentes das duas redes ferroviárias visitaram a
ferrovia da ABPF.
No ano seguinte, porém, a ABPF sofria sua maior perda.
No dia 17 de julho de 1986 falecia, prematuramente, em Campos do Jordão, SP,
o fundador e grande incentivador da ABPF, Patrick Dollinger, em decorrência
de um grave acidente automobilístico sofrido nos Estados Unidos semanas
antes.
Foi atravessando e vencendo um sem número de dificuldades, empecilhos e
situações desesperadoras que a ABPF acabou por se consolidar como uma
entidade preservacionista forte e atuante, capaz de obter uma sucata de
material rodante ferroviário (locomotiva, carro ou vagão) e restaurá-la
inteiramente, fazendo esse material voltar à vida para ser visto pelas
atuais e futuras gerações.
Foi preciso o esforço de muitos anos e a dedicação de muitos sócios
voluntários para que a iniciativa privada vislumbrasse a importância desse
trabalho e passasse a colaborar com a associação.
Hoje, o trabalho realizado é uma referência internacional. A "Viação Férrea
Campinas-Jaguariúna", o mais importante Museu Ferroviário Dinâmico do Brasil
reúne um riquíssimo acervo de material ferroviário da bitola métrica, com
exemplares das ferrovias mais importantes do Estado de São Paulo e do
Brasil. Esse acervo é visitado, continuamente, por turistas, estudantes e
pesquisadores de todo o país e do exterior.
A atuação da ABPF estendeu-se, também, para os Estados de Minas Gerais,
Santa Catarina e Paraná onde a associação opera trens turístico-culturais.
Por todas as suas ações, a ABPF é reconhecida hoje como uma das mais
importantes associações de preservação ferroviária existentes, sendo a
detentora do maior acervo de material rodante ferroviário da América Latina
e um dos maiores do mundo, operando 6 trechos ferroviários e contando com
mais de 2.000 associados em todo o país.
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