Em 1802 os mecânicos
ingleses Richard Trevithick e Andrew Vivian construíram uma "diligência
a vapor para estrada". Montada sobre rodas com aro de ferro, era uma
máquina muito pesada que se recusava a andar. Trevithick teve a idéia
de colocar o veículo sobre trilhos. Surgia a primeira locomotiva. Em 1804, Trevithick
realizou uma nova experiência: com uma locomotiva construída por ele
próprio, conseguiu rebocar cinco vagões, carregados com 10 toneladas de
ferro e 70 homens, ao longo de um trajeto de 14,5 km. A proeza consumiu
o espantoso tempo de quatro horas e cinco minutos.
Desde o seu surgimento,
o trem é considerado uma das maiores conquistas técnicas da era
industrial. Seguido da invenção do telégrafo, do telefone,
da lâmpada elétrica e do cinema, ocorridas também ao longo
do século XIX, o trem veio contribuir para o que as vanguardas da época
chamaram de futurismo no cotidiano, marcando o início de um tempo
de movimento e velocidade, em contraposição à estagnação dos costumes
nos séculos anteriores. Foi um período em que
alternaram-se o entusiasmo pelas novidades e o temor coletivo frente aos
avanços da ciência que, aos olhos do cidadão comum, parecia inverter as
leis da natureza, dando aos homens o supremo poder de controlar o tempo
e interferir mais incisivamente no espaço. Alterava-se rapidamente o
cotidiano das pessoas, sobretudo na Europa, então senhora do mundo. Os
novos métodos de produção, decorrentes da Revolução Industrial, por sua
vez, imprimiam novas exigências para a abertura de novos mercados e a
expansão dos negócios.
Entre essas exigências estava a padronização
universal de horários. Apenas para se ter uma
idéia, no início do século XIX, quem cruzasse os Estados Unidos de Nova
York a São Francisco, passava por mais de duas dezenas de zonas
temporais. Eram regiões com padrões de horários próprios, algo
incompatível com o aproveitamento econômico e nacional do sistema de
circulação, exigido tanto pela indústria como pela ferrovia.
As pressões
das companhias férreas provocaram um extenso debate sobre a necessidade
de padronização de horários, debate este que se prolongaria por quase um
século. Finalmente, em 1894, a
Terra foi dividida entre 24 zonas temporais, tendo Greenwich como
meridiano zero, padrão vigente até hoje. Nascia o fuso horário, e com ele
chegava ao fim o mundo do local e do particular. A reboque das
locomotivas, os dias teriam sempre a mesma duração em todo o globo
terrestre.
Ferrovias Industriais
A indústria extrativa talvez
tenha sido a pioneira na utilização de transporte sobre trilhos. No século
XVIII essa modalidade de transporte já era utilizada nas minas de carvão da
Europa, onde vagonetes, acionados por muares, deslizavam sobre trilhos de
madeira. O incremento e a complexidade das atividades fabris determinaram a
necessidade de transportar volumes cada vez maiores de materiais entre os
diversos estágios da produção. Os trilhos de madeira foram substituídos por
trilhos de ferro. No âmbito da indústria de transformação, as primeiras
experiências dessa modalidade ferroviária surgiram na Inglaterra, no final
do século XVIII, começo do XIX. Embora os vagonetes corressem sobre trilhos
de ferro, ainda funcionavam à tração animal. Com o advento da locomotiva a
vapor e a crescente demanda ocasionada pela expansão do mercado, grandes
indústrias adotaram o sistema, construindo suas próprias ferrovias.
No Estado de São Paulo, três desses empreendimentos merecem destaque: a
Companhia Cantareira de Águas e Esgotos que, em 1893, criou uma ferrovia
para o transporte de tubos empregados na construção de adutoras da Serra da
Cantareira até cidade de São Paulo, mais tarde denominada Tramway da
Cantareira; a Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus que, a partir
de 1914 passou a utilizar uma ferrovia própria, chamada Estrada de Ferro
Perus-Pirapora, para transportar insumos das jazidas até o centro de
produção; e a Votorantim, que criou uma ferrovia para transportar
matéria-prima até a sua fábrica de cimento.
O Início da Ferrovia no Brasil
Desde o seu surgimento, no
início do século XIX, a locomotiva a vapor firmou-se como o meio de
transporte ideal para cobrir longas distâncias, de forma rápida e
eficiente. Vinte anos após a sua
invenção, o trem alterava a paisagem e a rotina de diversas cidades
européias. Multiplicavam-se as linhas e os ramais a fim de atender a uma
demanda cada vez maior por transporte de passageiros e mercadorias.
No Brasil, a idéia de
construir uma estrada de ferro surgiu em 1835, por iniciativa do
Governo
Imperial, que concedia, entre outros benefícios, o privilégio de
exploração por 40 anos à companhia que se propusesse a construir uma
ferrovia ligando o Rio de Janeiro a Minas Gerais e ao Rio Grande do Sul.
Apesar disso, o empreendimento não se concretizou.
A primeira ferrovia do
Brasil seria inaugurada somente em 1854, quando, por iniciativa do
Barão
de Mauá (Irineu Evangelista de Souza), foi criada a Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada
de Ferro de Petrópolis, que, com uma extensão de 14 km, ligava a
Corte à
vila de Fragoso, localizada ao pé das serras fluminenses.
Com incentivos
governamentais, até o final da década outras cinco linhas entrariam em
operação.
Se, no plano nacional, a
implantação de ferrovias visava atender às necessidades de integração
territorial, no Estado de São Paulo, as iniciativas seriam marcadas por
razões de ordem econômica: era necessário escoar o café das fazendas,
cada vez mais distantes do litoral, até o porto de Santos.
A Ferrovia no Estado de
São Paulo
Originário da Etiópia, onde é
consumido desde a antiguidade, o café foi introduzido no Brasil na década de
1720. Plantado inicialmente no Estado do Pará, o seu cultivo estendeu-se
pela faixa litorânea do país até alcançar o Estado de São Paulo. Com a
queda
do comércio açucareiro em 1805, os fazendeiros paulistas do Vale do Paraíba
começaram a substituir as plantações de cana-de-açúcar pelos cafezais. A
prosperidade das cidades valeparaibanas e a expansão do mercado
internacional atraíram a atenção de fazendeiros de outras regiões do Estado,
que também passaram a cultivá-lo. Em algumas décadas, o Estado de São Paulo
se tornaria o maior produtor mundial de café. A partir de 1850, acentua-se a
importância do café para a economia do Estado e até mesmo do país. Extensas
áreas de floresta são derrubadas para implantação de novas áreas de cultivo.
Fazendas vão sendo instaladas em regiões cada vez mais distantes do litoral.
Aumentavam as distâncias e o tempo para percorrê-las tinha de ser cada vez
menor. O tradicional sistema de transporte em lombo de mulas não mais
atendia às necessidades.
Depois de 1867, a riqueza
de São Paulo começa a deslizar sobre trilhos. Naquele ano entrava em operação a
São Paulo Railway,
a primeira ferrovia paulista. Estendendo-se só até a cidade de Jundiaí, a
São Paulo Railway atendia apenas parcialmente às necessidades de escoamento
da produção. A lavoura do café expandia-se e era preciso transportá-la de
regiões cada vez mais distantes. Nos anos que se seguiram outras companhias
levaram suas linhas até os mais longínquos pontos do território paulista. Um
grande número de ramais e pequenas ferrovias completava rede. Direta ou
indiretamente, todos os trilhos do Estado convergiam para o terminal de
Jundiaí, de onde a São Paulo Railway transportava o café até o porto de
Santos.
The San Paulo Railway Company
Ltd.
A São
Paulo Railway - SPR foi a primeira ferrovia construída em São
Paulo, e a segunda no Brasil, tendo sido inaugurada em 1867. Financiada com capital
inglês, sua construção foi iniciada em 1860, enfrentando muitas
dificuldades técnicas durante a implantação, principalmente no trecho da
Serra do Mar. Para vencer os 800 m de desnível, numa extensão de 8 km, foi necessário construir um plano inclinado com
quatro patamares, onde foram instaladas máquinas fixas que
acionavam um sistema de cabos de tração engatados aos vagões. Em
1867 o trecho completo, ligando Santos a Jundiaí, com 159 km,
foi aberto ao tráfego. A concessionária teve o privilégio de
exploração da linha por um período de 90 anos, o que lhe garantiu a
cômoda condição de maior empresa ferroviária do Brasil e em volume de
carga. Graças a esse monopólio, a SPR jamais se interessou em
expandir suas linhas para além de Jundiaí, criando, assim, condições
para a constituição de outras companhias ferroviárias.
Terminado o prazo para a
concessão, em 1947, a empresa foi nacionalizada, passando a se
chamar Estrada de Ferro Santos a Jundiaí. Posteriormente foi
integrada à Rede Ferroviária Federal S. A. Em São Paulo, os trilhos
da SPR cruzavam a cidade no sentido leste-oeste, percorrendo várzeas
e outros terrenos planos, promovendo o desenvolvimento de bairros como a
Lapa, os Campos Elíseos, a Luz, o Brás e a Mooca. Junto às estações
construídas nesses bairros foram surgindo armazéns e indústrias. No bairro
da Luz, no lugar da primitiva estação, a SPR ergueu um dos mais
imponentes edifícios da cidade. Com todo o material empregado na sua
construção importado da Inglaterra, a Estação da Luz foi inaugurada em
1901.
Estrada de Ferro Sorocabana
A Sorocabana nasce de uma
cisão entre os acionistas da Companhia Ituana de Estradas de Ferro que,
fundada em 1870 por fazendeiros da região de Itu e empreendedores de
Sorocaba, tinha o objetivo de ligar a região ao terminal da São Paulo
Railway, em Jundiaí. Discordando do traçado
escolhido para implantação do trecho principal da Companhia Ituana, os
empreendedores de Sorocaba, liderados pelo empresário húngaro radicado
no Brasil, Luís Matheus Maylasky, fundaram, no mesmo ano de 1870, a
Companhia Estrada de Ferro Sorocabana. O objetivo era construir uma
ligação entre São Paulo e Ipanema, onde havia uma importante
fundição,
passando por Sorocaba. O trecho, com uma extensão de 120 km, foi
inaugurado em 1872.
Por atuarem na mesma zona
de interesse, algumas décadas depois ocorre a associação entre as duas
companhias. É então formada a Companhia União Sorocabana e Ituana.
Juntas, as empresas cobriam uma extensão de 820 km de trilhos e mais
222
km de vias fluviais nos rios Piracicaba e Tietê. Devido a uma grave crise
financeira, em 1900 a companhia seria encampada pelo Governo Federal e,
posteriormente, repassada ao Governo do Estado de São Paulo que, por sua
vez, arrendou a companhia a um consórcio internacional, denominado
Brasil Railway, que administrava outras ferrovias brasileiras. A partir de
1918, o
Governo do Estado de São Paulo reassume a companhia e estabelece um
programa de modernização. São compradas novas máquinas e equipamentos,
ampliadas linhas, construídas novas oficinas e estações, entre elas a
nova estação inicial da cidade de São Paulo, a atual Júlio Prestes.
A realização mais
importante desse período, no entanto, foi a construção da linha
Mairinque-Santos que, inaugurado em 1938, punha fim ao monopólio da São
Paulo Railway no acesso ao litoral.
Cia. Paulista de Estradas de
Ferro
Na segunda metade do
século XIX, amplia-se a fronteira agrícola do Estado de São Paulo.
Extensas áreas de floresta são derrubadas para implantação de novas
áreas de cultivo de café. Campinas, então considerada capital agrícola
do Estado, era o elo de ligação com as zonas de produção mais
interiorizadas. Desde a inauguração da
linha da São Paulo Railway, ligando Santos a Jundiaí, discutia-se seu
prolongamento até Campinas. Entretanto, apesar de ter o privilégio para
exploração do trecho Jundiaí-Campinas, a São Paulo Railway não
demonstrava interesse no empreendimento. Um grupo de grandes
cafeicultores da região tomou para si a incumbência da construção do
trecho. Assim, sob a liderança de Saldanha Marinho, presidente da
Província de São Paulo, nascia a Companhia Paulista de Estradas de Ferro.
A demanda por um
transporte que escoasse a produção de café era tão urgente que,
na
própria sessão de criação da empresa, foram abertas subscrições visando
a criação de novos trechos que atendessem às regiões de Limeira,
Rio
Claro, Piracicaba, Capivari, Descalvado, Pirassununga,
São Carlos e
Araraquara. O trecho inicial, entre
Jundiaí e Campinas, entrou em operação em 1872 e os demais,
sucessivamente, até 1880, quando a empresa já se encontrava totalmente
consolidada, explorando, inclusive, a navegação fluvial no rio
Mogi-Guaçu.
Com uma grande extensão de
linha em funcionamento e várias concessões para construção de outros
trechos, em 1911 a Paulista ostentava a imagem de empresa modelo no que
diz respeito à organização e pontualidade.
Foi responsável por
inúmeros melhoramentos, como a introdução no Brasil dos carros
restaurantes, dormitórios e pullman, importados dos Estados Unidos.
Em
1922 implantou os primeiros trens à tração elétrica da América do Sul.
Cia. Mogiana de Estradas de
Ferro
Fundada com o objetivo de
ligar a cidade de Mogi-Mirim a Campinas, teve seu primeiro trecho
inaugurado em 1875. A sua rápida expansão se
deu na direção de Ribeirão Preto. Em 1888 seus trilhos atingiram o rio
Grande, na divisa com Minas Gerais. Com isso a companhia iniciou também
o transporte fluvial na região.
Primeira companhia a
ultrapassar as fronteiras do Estado, trouxe para a esfera de influência
de São Paulo grande parte do comércio do Triângulo Mineiro. Ao longo do tempo, foi
incorporando pequenos ramais ferroviários, alguns de importância
reduzida, que eram chamados de cata-café.
Na década de 1960, o
prolongamento das suas linhas permitiram a ligação ferroviária de São
Paulo com Brasília, a recém-inaugurada Capital Federal.
Estrada de Ferro São Paulo-Rio
Apesar dos sinais de
esgotamento da terra, as cidades paulistas do Vale do Paraíbamantiveram
a sua importância como produtoras de café até o início do século XX. Com
o objetivo de ligar a região ao terminal da São Paulo Railway, na cidade
de São Paulo, e assim escoar a produção cafeeira valeparaibana, em
1875
foi inaugurado o primeiro trecho da Estrada de Ferro São Paulo-Rio.
Partindo da Estação do
Norte, a atual Roosevelt, no bairro do Brás, em 1877, a linha atingia a
cidade de Cachoeira Paulista. Eram 231 km de trilhos na bitola métrica.
Lá, atravessando o rio Paraíba em balsas, o que retardava muito a
viagem, mercadorias e passageiros atingiam a Estrada de Ferro Pedro II,
que, no trecho fluminense, completava o trajeto até a cidade do Rio de
Janeiro. Os trens da São Paulo-Rio
chegavam a Cachoeira Paulista ao final do dia. Para evitar os
riscos de
uma travessia noturna, cargas e passageiros pernoitavam na cidade e, ao
amanhecer, atravessavam o rio Paraíba e seguiam viagem em direção à
Corte, a bordo das composições da E. F. Dom Pedro II. Os
torreões da estação de
Cachoeira Paulista, ainda existentes, serviam de alojamento aos
passageiros mais abastados. Os demais pernoitavam em pequenas casas
defronte à estação.
Com a conclusão de uma
ponte ligando os duas ferrovias em 1879, embora a baldeação ainda fosse
necessária, dada a diferença de bitolas, unificadas apenas em 1912, o
tempo de duração da viagem foi reduzido. Em 1890 a companhia foi
incorporada pelo Governo Federal e anexada à Estrada de Ferro Central do
Brasil, denominação da E. F. Dom Pedro II após a proclamação da
República.
Estrada de Ferro São
Paulo-Minas
Fundada com nome de
Companhia Melhoramentos de São Simão, por iniciativa do empresário
Jorge
Fairbanks, em parceria com a intendência municipal da vila de São Simão,
visava atender às fazendas de café da região. Com uma bitola de 60 cm,
seu primeiro trecho entrou em operação em 1893, ligando diversas
fazendas à estação da Cia. Mogiana na cidade. Devido a graves
dificuldades financeiras no início do século XX, acabou hipotecada. Em
pouco mais de três anos, no entanto, o próprio Fairbanks conseguiu reaver a
companhia que, independente dos interesses regionais, pôde estender seus
limites de atuação, alcançando o território mineiro.
Em 1922 foi adquirida pela
Companhia Eletrometalúrgica Brasileira, interessada no transporte de
minério de ferro das jazidas próximas a São Sebastião do Paraíso, em
Minas Gerais, para sua sede em Ribeirão Preto. Com a falência da
Eletrometalúrgica, em 1929, a São Paulo-Minas sofre
intervenção do
Governo do Estado de São Paulo que, posteriormente, a adquire.
Em 1934, já incorporada ao
Estado, promove grande incremento do transporte de cargas entre o
sudoeste de Minas e as regiões da Alta Mogiana e da
Paulista. No início da década de
1940, sua bitola é alargada para 1 m, o que propicia uma ampliação do
volume de carga transportado. Na década de 1960 é incorporada à
Cia.
Mogiana, também administrada pelo Governo do Estado.
Estrada de Ferro Araraquara
Fundada em 1895 por
cafeicultores da região de Araraquara, tinha por objetivo ligar a cidade
à vila de Taquaritinga, distante 75 km na direção das barrancas do rio
Paraná. O primeiro trecho foi inaugurado em 1901. Em grave
crise financeira,
em 1909 é adquiridapelos próprios empregados, que obtém, no exterior,
os recursos necessários para sanear as finanças da empresa. Em 1912 sua malha é
ampliada até São José do Rio Preto e segue incorporando pequenas
ferrovias. Com novo abalo financeiro, sua falência é decretada em
1914. Mas como atendia a uma região que
ocupava o segundo lugar na produção de café do Estado de São Paulo, na
década de 1920, é incorporada pelo Governo Estadual.
Sob a administração do
Estado ocorre sua maior expansão. Na década de 1950, substitui a
bitola
métrica pela bitola larga, compatível com a da Cia.Paulista, cuja linha
passava por Araraquara, o que lhe abre uma conexão, ainda que indireta,
com o litoral. Marcando o fim da sua
expansão, atinge as margens do rio Paraná, na divisa com o atual
Estado
do Mato Grosso do Sul.
Estrada de Ferro Noroeste do
Brasil
A Noroeste foi fundada em
1904. Partindo da cidade de Bauru, tinha como objetivo estabelecer uma
ligação ferroviária entre os oceanos Atlântico e Pacífico, através do
Estado do Mato Grosso e da Bolívia. A insalubridade da região,
a presença de indígenas hostis, revoltados com a implantação da
ferrovia, e tantas outras dificuldades encontradas já nos primeiros
trechos resultaram em muitas modificações do traçado originalmente
previsto. Ainda assim, em seis anos, a linha alcançava o atual Estado do
Mato Grosso do Sul, através de mais de 450 km de trilhos implantados em
plena mata.
O seu prolongamento seguiu
acelerado na direção da cidade de Corumbá, fronteira com a
Bolívia. Em
Campo Grande foi construído um desvio com destino à cidade de
Ponta-Porã, fronteira com o Paraguai.
Antes de alcançar Corumbá,
no entanto, havia um grande obstáculo a ser transposto: o rio Paraguai,
ainda em solo brasileiro. No início da década de 1950 a construção de
uma ponte de grandes proporções para a época possibilitou a sua
travessia. Mais alguns quilômetros, os trilhos chegavam a Corumbá. Um acordo firmado com uma
companhia boliviana tornou a Noroeste parte de uma linha
transcontinental. Dado o ambicioso plano, a
Noroeste é um dos raros casos brasileiros em que a ferrovia precedeu a
fixação do homem branco e o surgimento de inúmeras cidades.
As estações
e os alojamentos, construídos para abrigar os trabalhadores envolvidos
nas obras, acabaram por se constituir em pioneiros núcleos de povoamento
ao longo das suas linhas.
Arquitetura das Estações
Os edifícios ferroviários
tiveram grande importância no desenvolvimento da tecnologia da
construção no Brasil. Através deles, o País entrou em contato com
técnicas construtivas inovadoras, surgidas na Europa e nos
Estados
Unidos durante o século XIX e início do século XX.
As companhias férreas,
dada a velocidade com que avançavam pelo interior do Estado, possuíam em
seus quadros funcionários especializados, que desenvolviam projetos e
executavam as obras de todas as suas edificações. Eram armazéns,
moradias para os trabalhadores da linha, edifícios administrativos e,
sobretudo, estações. Em geral apresentavam o
mesmo tipo de solução arquitetônica: os serviços ferroviários, depósito
e casa do chefe da estação ocupando o corpo principal do edifício, e uma
gare metálica anexa, cobrindo a plataforma de embarque. O
porte o
acabamento eram determinados pelo tamanho e a importância da cidade.
Pelo caráter articulador
que possuíam, as estações tornaram-se marcos referenciais em quase todas
as cidades, aglutinando ao seu redor os mais importantes serviços da
comunidade e o comércio.
Começar de Novo
Desde 1957 o Governo Federal
havia assumido o controle e unificado a administração da Estrada de Ferro
Santos a Jundiaí e da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil que, incorporadas
às demais ferrovias da União assumiram a denominação de Rede Ferroviária
Federal S. A. Em 1970, o Governo do Estado de São Paulo já detinha o controle
da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, da Estrada de Ferro Sorocabana,
da Estrada de Ferro Araraquara e da Estrada de Ferro São Paulo-Minas e
administrava a Companhia Paulista de Estrada de Ferro. A fim de racionalizar
e imprimir maior eficiência à administração ferroviária em São Paulo, em
1971, o Governo do Estado promoveu a fusão daquelas cinco companhias sob a
denominação de Ferrovias Paulistas S. A. - FEPASA. Essa providência oficial
resultou no desaparecimento das nomenclaturas das empresas pioneiras da
ferrovia paulista. No final da década de 1990, a própria FEPASA acabaria
incorporada ao patrimônio da União, passando a compor a Malha Paulista da
Rede Ferroviária Federal S.A.
Entretanto, no sentido contrário à estatização, a partir
de 1996 tem início o movimento de privatização de todas as ferrovias
brasileiras. No Estado de São Paulo, as companhias que compunham a antiga
FEPASA passaram à administração da Ferrovias Bandeirantes S.A.FERROBAN. A
Noroeste do Brasil foi assumida pela Ferrovia Novo Oeste S.A. A
Santos a
Jundiaí e a Central do Brasil passaram à responsabilidade da MRS Logística
S.A.
Pesquisa, texto e compilação de Plínio Carnier
Júnior, Mt.
Departamento de Iconografia do Memorial do Imigrante, São Paulo, SP
Transcrição e reprodução para a Internet de
Fernando Rebelo
aPaReCe
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